Terere Kids Project: Da Favela Pra Oxford

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Em 2018, Gabriele Paone podia ser vista andando pela favela com Alexandre “Buda” Ribeiro e o resto da equipe do Tererê Kids Project, um projeto pequeno mas graças ao seu homônimo, 5x Campeão do Mundo Fernando Tererê tem uma grande presença e reconhecimento internacional. Se você pesquisar projetos sociais de jiu-jitsu provávelmente achara o projeto que fica localizado no Morro do Cantagalo, em Ipanema.

Graças ao seu blog em inglês é normal encontrar estudantes italianos conversando com membros de gangues armados durante um café matinal. Esses diálogos levaram a um estudo etnográfico sobre a capacidade do jiu-jitsu de reduzir a influência das gangues nas comunidades periféricas do Rio. Recentemente, Paone foi convidado para um programa de doutorado na Universidade de Oxford, onde continuará suas pesquisas.

Seu trabalho fornece material acadêmico muito necessário que lança luz sobre a importância das organizações de base comunitária e da obscura economia informal em que operam. Estudos acadêmicos objetivos são ferramentas importantes para projetos sociais e ativistas comunitários que lutam por legitimidade.

A seguir uma entrevista realizada com Paone após a publicação de um trecho do estudo. Rifle and Kimono é um estudo etnográfico que descreve os 6 meses que passou com Buda treinando no Terere Kids Project.

Confira o artigo Kimono e rifle: uma etnografia do jiu-jitsu brasileiro entre os mais jovens habitantes de uma favela carioca, um trecho do estudo etnográfico de Paone.

  1. Onde você estudava quando fez seu trabalho com Terere Kids Project no Rio?

Na época de minha pesquisa de campo no Brasil, eu era estudante de mestrado em Antropologia e Etnologia Cultural na Universidade de Bolonha.

  1. Como você conheceu o Projeto Tererê Kids?

Desde que comecei a estudar antropologia, sempre tive como objetivo fazer pesquisas que fossem interessantes não só do ponto de vista teórico, mas que também pudessem dar uma contribuição real para a melhoria das condições de vida de alguém. Logo me interessei pelos milhares de menores que vivem em condições difíceis e fiz um mestrado em Estudos Africanos, para o qual escrevi uma dissertação sobre a questão das crianças soldados.

Nesse ínterim, comecei a praticar BJJ e ouvi várias vezes histórias de pessoas que me contaram sobre seus benefícios. Intrigado com esse aspecto, me perguntei que impacto o BJJ poderia ter na vida de crianças que crescem em um ambiente hostil. Após várias pesquisas online, identifiquei o Projeto Tererê Kids como uma concretização de como o BJJ pode ajudar jovens que vivem em situações difíceis.

  1. Em sua opinião, quais benefícios Buda e outros membros da comunidade acham que vão ganhar com o envolvimento em gangues?

Existem vários motivos pelos quais uma pessoa opta por entrar no tráfico de drogas. Em primeiro lugar, o ganho econômico decorrente da atividade criminosa é o benefício mais imediato e atraente, especialmente em uma comunidade em que a maioria dos moradores vive com um salário inferior ao salário mínimo brasileiro.

O crime representa aqui uma possibilidade de ascensão social para pessoas que dificilmente terão os mesmos ganhos – materiais e simbólicos – no mundo jurídico. Além disso, as chances de progresso são maiores do que em uma economia regular. No entanto, o dinheiro não é a única motivação.

A figura do traficante apareceu para mim como um herói negativo na comunidade, em oposição ao herói positivo representado pelo lutador de BJJ.

Definir um narcotraficante como “herói” pode parecer paradoxal, mas é exatamente assim que ele aparece aos olhos de muitos dos membros mais jovens da comunidade. Além disso, aqui muitas crianças crescem sem uma figura paterna e considero esta ausência um dos motivos que levam os jovens a abordar o crime, onde um traficante mais velho o acolhe como se fosse seu próprio filho.

  1. Em sua opinião, que influência as agências governamentais têm na comunidade?

Não tenho conhecimento de nenhuma agência governamental operando na comunidade, mas pode haver alguma das quais eu não tenha conhecimento atualmente.

5. Você já viu programas semelhantes replicados em outros países?

Visitei outros projetos sociais do BJJ realizados nos bairros mais desfavorecidos de algumas cidades como Paris e estou planejando visitar alguns projetos semelhantes na África, assim que a situação atual permitir.

6. Por fim, qual a influência que você percebe que os projetos sociais têm na comunidade.

Existem vários projetos sociais operando na comunidade que oferecem programas extracurriculares para as crianças, ou aulas gratuitas em uma variedade de esportes e idiomas. No caso dos Tererê Kids Project (assim como do Cantagalo Jiu Jitsu), os benefícios são muitos para os jovens.

“Tererê é como um pai para mim”. Estas são as palavras que me têm sido ditas por muitos adolescentes que treinam na academia e podem ser interpretadas como fruto de um ambiente familiar que na maioria das vezes se caracteriza pela ausência de figura paterna. Assim, é justamente nesse sentido que o professor de jiu jitsu é identificado como um pai que certamente não substituirá o biológico, mas que ao menos parcialmente preenche a lacuna causada por sua ausência.

Outras questões surgem do vício generalizado e do uso de drogas e álcool, bem como de ter um membro da família envolvido no narcotráfico. Em todos esses casos, acredito que o BJJ pode oferecer às crianças um padrão de comportamento diferente e alternativo.

O professor de artes marciais representa para muitas dessas crianças um modelo como alternativa ao padrinho que se adquire no mundo do crime. “Se você não os abraçar, o mundo os abraça”, me disse Nabola (um dos professores do Cantagalo Jiu Jitsu, prima de Tererê), e muitas vezes notei como os professores de Jiu-Jitsu estavam particularmente atentos ao comportamento dos crianças e adolescentes também fora do ambiente da academia.

O Projeto Tererê Kids também proporciona às crianças um espaço seguro, o da academia, onde não há polícia, tiroteio ou tráfico de drogas. Outro benefício é dado pelo distanciamento, mesmo que temporário, da exposição ao funk pornográfico e sexista. Em vez disso, na academia não há diferenças de gênero entre meninos e meninas, e homens e mulheres treinam juntos sem distinção, sem qualquer forma de discriminação – uma discriminação a que os moradores da comunidade estão acostumados em várias frentes. Por exemplo, legalmente, morar em uma favela é considerado uma circunstância agravante se alguém for condenado por porte ou tráfico de drogas. Em oposição a essa tendência discriminatória, todos na academia são bem-vindos e podem treinar independentemente de sexo, sexo, religião, orientação política ou procedência.

Além disso, todas as crianças que praticavam Jiu-Jitsu me disseram que treinavam porque gostavam e porque aprenderam a se defender. Já os adolescentes mais velhos tinham uma visão mais voltada para o futuro: o objetivo costuma ser abrir uma academia de BJJ no exterior, de preferência nos EUA.

Este objetivo não é um sonho adolescente, mas representa uma possibilidade real para esses meninos e meninas. Aliás, dos mais de trinta faixas-pretas que a comunidade já produziu – quase todos iniciados no Jiu-Jitsu por Tererê ou seus alunos – muitos vivem no exterior como principais competidores e professores de Jiu-Jitsu.

 BJJ is obviously not an alternative to school, which should be paramount, but it is a fact that the public education system attended by most young people in the community offers limited prospects for the future and more importantly, is not considered by young people themselves as an investment for their future.

On the contrary, opening a BJJ academy represents the goal of most teenagers I’ve talked to, and this may be a less utopian job opportunity than it might seem at first glance. Brazilian Jiu Jitsu, as the name suggests, was created in Brazil, and Brazilians have for a long time maintained the monopoly in the most important fighting leagues and BJJ academies. Only in the last few years, in fact, did non-Brazilian athletes enter the competitive world and open their own gyms. Furthermore, outside of Brazil there are many academies where the professor is a purple or even blue belt and BJJ is taught only for amateur purposes. In addition to this, being Brazilian would give them an immediate cultural recognition in the martial arts arena.

I have often wondered what the greatest benefit of BJJ for young people in the community and I have found the answer to be stability. This is defined as “Ability to remain in the same relative place or position in spite of disturbing influences; capacity for resistance to displacement; the condition of being in stable equilibrium”. 

The reality of the community appeared in my eyes as characterized by strong imbalances and contrasts, as described in my master dissertation. Young girls pregnant and teenage boys with war weapons; religious music or funk music; underage traffickers who earn ten times more than an adult with a regular job. In all of this, the practice of BJJ, through the work of the Tererê Kids Project and the Cantagalo Jiu Jitsu project, has the ability to help the younger members of the community to stay on the right path, as I have often been told.

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